Primeira Crítica “Porque Temos Esperança

PORQUE TEMOS ESPERANÇA

por Patricia Rebello

Lá no começo dos anos 1920, Robert Flaherty – diretor de “Nanook do Norte”, considerado um marco histórico do filme documentário – descobria que documentário é parceria. E que sem a colaboração integrada de todos os que participam da produção, não se faz cinema. Não apenas ele convocou boa parte dos esquimós da Baía de Hudson para colaborar nas filmagens, mas também conquistou o coração (e a alma, e o desejo de ser personagem) de Nanook, o protagonista da história. O esquimó não apenas encenou para a câmera gestos e cenas do cotidiano, como também retomou práticas e processos que há muito haviam deixado de existir. “O filme em primeiro lugar”, dizia ele. Claro que essa parceria é deixada de fora da história que se conta – mas talvez ninguém entendesse muito, lá então, a importância que ela tinha.

Quase cem anos depois, é essa cumplicidade que também constrói documentários como “Porque temos esperança”; contudo, agora não apenas ela aparece na tela, como também é celebrada como aquilo que move a narrativa. Marli Márcia da Silva, presidente e fundadora da Associação Pernambucana de Mães Solteiras, é a personagem que faz as vezes de fio condutor do documentário, e elemento de ligação entre as famílias cujas histórias se desenrolam. Assim como para o esquimó, também para ela “o que importa é o filme”; mas diferentemente de Nanook, Marli sabe que não é ela quem importa, mas sim as histórias que se contam, e se desdobram, a partir dela.

Boa parte dos mais inventivos documentários brasileiros contemporâneos giram em torno da cultura carcerária (O Rap do Pequeno Príncipe, O prisioneiro da grade de ferro, Juízo e Justiça, para ficar em poucos exemplos), questionando e colocando em xeque a distância entre a teoria e a prática. “Porque temos esperança” comenta também estes aspectos, mas a partir de um recorte bem original: o reconhecimento da paternidade. A condição de ter um pai, ou ser o pai de alguém, pode representar um ponto de virada na vida do presidiário, um ponto em direção ao qual eles podem caminhar e reencontrar a paz, desejo de liberdade, a esperança. Mas se esse discurso parece bem resolvido, nada mais estranho do que o real que se consolida “para o filme, pelo filme”: a câmera da diretora Susanna Lira capta momentos sublimes de incômodo, desconforto e encenação forçada entre as famílias reunidas. Fica no espectador a sensação dialógica do processo: é bom, mas é ruim. Como tudo na vida. – See more at: http://criticos.com.br/?p=5776&cat=2#sthash.4dqJSpCi.dpuf

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