Crítica do filme Damas do Samba por Ciléa da Matta.

Mulheres bordando a cultura do Rio

por Ciléa da Matta

Emocionante. É o que posso dizer do documentário Damas do Samba, de Susanna Lira. E a emoção é tão grande que bate qual surdo no peito e transborda. É o que faço agora. Damas do Samba não fala do samba como ritmo musical ou da presença glamorosa das mulheres nesse universo. Fala da beleza retratada pelas mulheres do samba e, através delas, da resistência tomada pela mão ao assumir o protagonismo da construção da história da cultura do Rio de Janeiro.

Susanna vai mais longe. Para além do belo recorte, povoado de finos e delicados bordados desses que só as sábias tias e avós são capazes de confeccionar, ela nos faz sentir parte da obra. As novas e antigas gerações se alternam: como paninhos de adorno, caminhos de mesa ou ricas toalhas de sala de jantar a contar lindas histórias. Como toda boa bordadeira, Susanna tem acabamento perfeito. Seja do direito ou do avesso, não consigo reconhecer restos de linha, arremates mal feitos. Tudo é tratado, por essa bordadeira-documentarista, com respeito e capricho.

Damas do Samba deixa para suas herdeiras diretas e para todas as mulheres um lindo e rico enxoval. Algumas o usarão dando-lhe o verdadeiro destaque. Privilegiando e valorizando os espaços nobres da casa. Dando-lhe respeitoso destino. Outras, por sua vez, talvez não se interessem tanto. Não lhe atribuam serventia. Tão pouco reconheçam seu real valor. Mas há de haver aquelas que se interessarão em perpetuar o ofício, tornando-se bordadeiras da história e guardiãs de sua memória. Preocupadas em observar o detalhe; com os tipos de pontos utilizados; com as técnicas empregadas em sua construção e confecção, buscando fazer peças cada vez mais bonitas. Com o mesmo cuidado, talento e acabamento. Saberão quem foram suas precursoras, sua importância para a cultura do Rio de Janeiro e se reconhecerão nelas. E, por respeito, admiração e consciência, assumirão para si o protagonismo e a responsabilidade de tocar o barco da resistência. Além de um maravilhoso documentário Susanna Lira nos deixa um inestimável legado: documenta, registra e garante a preservação da história bebendo primordialmente da fonte da oralidade. Damas do Samba desencadeia reflexões e convida a uma tomada de atitude. Me fez chorar de emoção. Aplaudi e transBORDEI !

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