Matéria no “Estadão” – Blog Adriana Plut

Festival do Rio: “Porque Temos Esperança” discute questão da ausência paterna

Adriana Plut

30 setembro 2014 | 22:58

Há cinco anos, a diretora Susanna Lira se deparou – e se encantou – com a história de Marli. Apaixonada pela obra de Pedro Almodóvar, Lira, que nunca conheceu seu pai, fazia pesquisa para outro documentário, Nada Sobre Meu Pai, (ainda em fase de produção) quando se encontrou com uma mulher de cabelos muito longos, boca pintada e roupas coloridas. A figura e o jeito forte, mas ao mesmo tempo doce, de Marli fizeram com que Lira se lembrasse na hora dos personagens do diretor espanhol que tanto adora. Criadora da Associação Pernambucana de Mães Solteiras, Marli trabalha incansavelmente para que pais reconheçam seus filhos no papel e na vida. “Ela lida com questões muito sérias, sentimentos delicados como o afeto, laços de pais e filhos, e faz o seu trabalho de um jeito muito comovente”, diz a diretora. No documentário Porque Temos Esperança, Lira acompanha a rotina nada fácil de Marli e enfoca o projeto “paternidade além das grades” idealizado pela associação, que hoje atua em diversos presídios de Pernambuco.
A ideia da diretora nunca foi fazer um filme sobre uma ativista. Assim como as pessoas que tenta ajudar, Marli foi abandonada pelo marido há 23 anos, quando seu filho ainda era um bebê. É por isso que os primeiros 12 minutos do documentário não mostram o trabalho da Associação, e sim um café da manhã quase frustrado em que ela é rejeitada pelo filho, que por sua vez sente não ter a atenção da mãe, afinal o tempo dela é quase todo dedicado a ajudar outras famílias. Fazendo com que outros pais reconheçam seus filhos, Marli parece buscar uma espécie de redenção para sua própria história. “Ela não é uma heroína clássica, mas uma mulher cheia de dilemas”, diz Lira. “Me interessa documentar essas contradições, o filho que se sente amado e rejeitado, diz que não vai falar e depois fala, esse conflito de emoções. Deixar esse embate já nos primeiros minutos foi uma decisão difícil de montagem, mas se não fosse assim seria um filme sobre uma ativista, mas a Marli não é só isso. Com seu trabalho ela tenta suprir algo dentro de si mesma”.
O documentário mistura a vida pessoal de Marli (em certo momento do filme, ela se encontra com o ex-marido e busca entender se ele sabe quanta dor causou) com a história dos presidiários que auxilia na Associação. “Tem um momento que me faz chorar toda vez, que é quando o Gleidson chega no cartório para registrar o filho e é muito carinhoso”, conta Lira . “E aquele filho com um olhar triste, que mostra a questão da ausência paterna, do abandono, uma carência enorme que a gente tem”.
Porque Temos Esperança será exibido pela primeira vez nesta quarta-feira (30.9) no Festival do Rio (mostra Première Brasil: Competição de Documentários). Será a primeira vez que Marli assistirá ao filme. Para Lira, sua personagem saída dos clássicos de Almodóvar deve balançar. “Ela ajuda tanto os outros que não tem tempo para olhar pra si”. O público também não deve sair indiferente, afinal é difícil ver Porque Temos Esperança e não se emocionar pensando na relação com os próprios pais.

fonte: http://blogs.estadao.com.br/adriana-plut/festival-do-rio-porque-temos-esperanca-discute-questao-da-ausencia-paterna-2/